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Reconstrua-se

Levante o seu astral. Quando acordei, ele não estava mais do meu lado. Apenas o seu cheiro. Estava em toda parte. Havia deixado um bilhete, dizendo que precisava trabalhar hoje de novo. Sorri e joguei-me para trás na cama, brincando com um anel ruivo de meus cachos. Me sentia feliz, havia sido a melhor noite da minha vida. Quando levantei me vi vestida com sua camisa larga. Se eu pudesse, ficaria assim o dia todo, só para senti-lo mais perto de mim. Porém era sábado, e mamãe estava em casa. Após ter lavado o cabelo e enfrentado uma série de repreensões por pisar na calçada molhada – dia de faxina – finalmente consegui sair. Pretendia comprar algo pra ele no caminho. Cumprimentei todo mundo na rua, acenei para o carrancudo e antipático senhor Higgins, até ajudei uma garotinha a atravessar a avenida. Adentrei a loja de penhores com uma barra de chocolate em mãos. Perguntei por ele, mas seu chefe avisara que ele não precisava trabalhar naquele dia. O sorriso sumiu do meu rosto e mal o a...

Antigo Refúgio

Queria que você estivesse aqui. Por quantas vezes eu já disse isso? Por quantas vezes desejei te ter por perto de mim? E por quantas vezes você não esteve lá quando eu mais precisava? Você era meu refúgio, me acolhia e me entendia. Você era o único com quem eu desabafava, você me dizia que tudo ficaria bem, sem sequer saber se realmente ficaria tudo bem. Eu acreditava nessas palavras, me agarrava a elas como se fossem as únicas que pudessem me fazer continuar seguindo em frente. Acreditava nelas porque queria acreditar, não porque eu tinha certeza da verdade delas. Porque eu não tinha certeza. Aliás, nunca terei. Mas você me fazia sentir tão bem... Sempre que eu tinha algum problema, você me acalmava com suas palavras singelas e com seus abraços acolhedores. Queria que você estivesse aqui. Por quantas vezes você já ouviu essas palavras? Por quantas vezes almejei sentir teus cabelos negros e fitar teus olhos azuis? Eu queria tanto te tocar e viver contigo feliz para sempre... Eu sofri...

Inexistente

Leve-me embora. Você chegou com aquela camisa cinza amarrotada e sentou ao meu lado. Seus olhos sombrios me fitaram e transmitiram-me uma paz imensurável, uma segurança inabalável. Era algo bom, estar ali com você, só com você. Aqueles jeans surrados, aquele meio sorriso torto, aquele abismo negro dos seus olhos. Você era o único que realmente me entendia. E nenhum poema de amor, nenhuma promessa, valeria mais do que aquelas conversas tolas que tínhamos e aqueles olhares simples que trocávamos. Mas você não apareceu mais. Depois de tudo. Quando eu achava que te teria. Aonde você se escondeu? Por que fugiu assim? Por que me abandonou? Leve-me embora. Eu nunca mais ouviria sua risada ou veria seus cabelos crespos balançarem à luz do sol. Nunca mais. Porque você nunca veio. Você nunca me conheceu. Você nunca existiu pra mim. Quando você virá? Quando me salvará dessas correntes que me aprisionam? Quando me afogará com minhas lágrimas de felicidade? Quando ouvirá minhas histórias? Diga ...

Saudade

Sinto falta. Sinto falta dos desenhos infantis, das brincadeiras ingênuas, de tomar sorvete toda semana sem que ninguém soubesse. Sinto falta delas e das suas risadas divertidas. Daquelas cartas singelas e dos desenhos que pintávamos. Sinto falta de pessoas que cortaram brutalmente nossos laços, com quem hoje sou obrigada a conviver como se nunca tivéssemos feito o que fizemos. Como se nunca tivéssemos vivido o que vivemos. Como se aquilo não passasse de um sonho. Sinto falta de chegar da escola e sentar na janela do quarto enquanto olhava aquele prédio. Tão cinza e tão curioso. Aquele prédio que cresceu comigo. Aquele prédio que eu admirava à noite, quando as janelas acendiam e a lua refletia nas paredes. Sinto falta de sentar à janela e olhar para baixo, tentando calcular a distância até o chão. Será o suficiente para morrer caindo dali? Será o suficiente para sobreviver numa tentativa de fugir? Ainda vou ter laços eternos com pessoas verdadeiras. Ainda vou sentar na janela e ver...